O transportador rodoviário e a qualidade de vida no trabalho

Indiscutivelmente, o profissional responsável pelo transporte de carga no Brasil tem um grande peso na contribuição aos negócios de maneira geral, também porque, lamentavelmente, continuamos insistindo no transporte rodoviário, ao invés de redirecionarmos uma parte dos investimentos em transporte de carga para as ferrovias e as hidrovias, e, por isto, paralelamente, deveria merecer por parte das empresas e do governo, uma atenção maior no que diz respeito à qualidade de vida no trabalho.
Exposto a toda sorte de perigos e obstáculos nas estradas, este profissional tem, no seu dia-a-dia, de enfrentar, na verdade, o desafio de transferir cargas e mercadorias de um ponto a outro da cidade, do estado ou do país, e mantendo a integridade do produto, tanto no sentido qualitativo (aspectos físico-químicos) como na questão quantitativa, isto é, sem perda de produto.
E a sua integridade física, como fica?
Se há o desafio de entregar no destino a carga “do jeito que ela lhe foi entregue na origem”, como esse profissional tem enfrentado o desafio de preservar-se diante dos fatores de insegurança, ampla e perigosamente espalhados por nossas rodovias?
E se quisermos ser mais críticos no questionamento, poderíamos perguntar: com que grau de certeza esse motorista diz à sua família “até logo” ou “até dia tal”?
Quem, efetivamente, deve zelar por sua segurança e conseqüentemente por sua qualidade de vida?
Para responder a estas questões, temos de abordar alguns pontos essenciais que afetam diretamente a qualidade de vida do profissional do transporte, como por exemplo, a situação das estradas, e nesta área, com exceção de algumas vias estaduais e poucas federais, a situação é crítica, o que contribui sobremaneira para o alto índice de acidentes e quebra de veículos principalmente no período compreendido entre o final da tarde e o início do amanhecer, onde fatal e sabidamente a visibilidade se reduz.
A manutenção inadequada dos veículos também tem de ser considerada para efeito desta análise. Uma outra questão diz respeito ao comportamento do motorista que por inabilidade motivada por ausência de treinamento adequado, ou irresponsabilidade, acaba por provocar ocorrências graves, afetando não raras vezes, outros condutores e passageiros na mesma via ou na via em sentido oposto.
Outro fator que merece uma reflexão mais profunda é o prazo estipulado ao motorista para que cumpra sua tarefa, quase sempre menor do que o necessário para o trajeto ser realizado em condições seguras e humanas.
E um outro ponto, sobre o qual não podemos, no momento, nos aprofundar por ser um tema de alta complexidade, é relativo à remuneração do motorista, cujo padrão, como para a maioria dos trabalhadores brasileiros, está inquestionavelmente abaixo do necessário para uma sobrevivência digna.
Sabendo-se que “qualidade de vida no trabalho” é um conjunto de ações e fatores de ordem econômica, social, física e psicológica, como associá-los e administrá-los visando obter um nível mínimo de tranqüilidade espiritual, saúde física e mental e equilíbrio sócio-econômico?
Algumas ações podem ser adotadas para isto, a saber:
-Disponibilizar ao motorista sempre um veículo em condições seguras de dirigibilidade, que lhe garanta o máximo de probabilidade de realizar a viagem sem ocorrência de avarias mecânicas e elétricas;
-Fornecer ao profissional um prazo que lhe possibilite realizar sua viagem sem ser obrigado a cometer excessos, como de velocidade ou conduzir o veículo com sono ou cansado;
-Prover-lhe de condições remuneratórias (salário e benefícios) que lhe proporcionem e à sua família, um nível mínimo de conforto e tranqüilidade quanto à saúde física e mental;
-Permitir-lhe e/ou proporcionar-lhe momentos de descanso e lazer visando contribuir com o equilíbrio entre a dedicação ao trabalho, a necessidade de convívio familiar e social, tempo para estudo e práticas esportivas;
-Reconhecer suas qualificações e virtudes sempre que realizar algo que exceda positivamente ao que lhe foi solicitado ou atribuído, proporcionando desta forma, uma sensação de reconhecimento e valorização pessoal e profissional, uma das razões principais de satisfação do trabalhador para com a empresa à qual está vinculado.
Desta forma, com estas ações, podemos ter absoluta convicção de estarmos contribuindo positivamente para que o transportador de carga tenha uma vida melhor, para ele e para as pessoas de seu convívio.

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