O copo “meio cheio”

Durante boa parte da minha vida profissional fui condenado por vários chefes por criticar políticas, decisões ou situações erradas nas empresas onde trabalhei. Diziam-me: “você precisa ver as coisas positivas também”.
No ano passado, quando eclodiram vários escândalos de corrupção, e em meio às incertezas sobre o futuro do Brasil quanto a seus valores morais e éticos, recebi inúmeros e-mails sobre o tema, mas um deles, extremamente consolador, pedia-me que olhasse também para o que o Brasil tem de melhor. Seu conteúdo era um conjunto de pontos positivos que nosso país possui: temos os garçons mais gentis do mundo, possuímos um dos sistemas mais evoluídos do planeta em votação eletrônica, não temos vulcões, furacões e terremotos, entre outros.
Certa vez, numa palestra profissional, o condutor do trabalho apresentou a “história do copo meio cheio”, que na ocasião achei interessantíssima, tanto que já a utilizei inúmeras vezes em apresentações e treinamentos.
Entretanto, com a experiência da vida e a educação formal vamos nos tornando cada vez mais críticos, e comecei a repensar o conteúdo dessa “história”, e a conclusão a que cheguei foi que pedir aos outros que vejam sempre o copo “meio cheio” é também uma forma, ainda que sutil, de tolher a capacidade que as pessoas tem (nem todas, infelizmente) de discernirem entre o certo e o errado, estimulando-as a ter sempre uma visão positiva das coisas, para que, no fundo, estas “compensem” as ruins ou péssimas, fazendo-as esquecê-las temporária ou definitivamente.
Para ilustrar meu pensamento e minha proposta, quero citar apenas alguns exemplos paradoxais recentes e altamente preocupantes: o brutal assassinato de um menino no Rio de Janeiro, que provocou muito choro, lamentação e protesto, confirmando nosso altíssimo índice de criminalidade, e logo em seguida a maior festa brasileira, da qual muito nos orgulhamos: o Carnaval, que, com certeza, deve ter provocado muitas manifestações de alegria e até feito muita gente esquecer o caso do menino.
Então, a pergunta: vamos continuar dizendo: “ainda bem que temos o Carnaval para nos alegrar um pouco, ou vamos assumir seriamente o desafio de equacionar o problema da criminalidade, investindo em educação para solucioná-lo?
O programa Big Brother Brasil, encenado por “atores” e “atrizes” predominantemente de baixa formação moral e educacional, é um programa assistido e adorado por muita gente, ainda que muitos aleguem que só o assistem, como justificativa ou desculpa (pelo quê?) para passar o tempo, ignorando que estudos sérios da Psicologia mostram que podemos, com grande segurança, associar o que se assiste ou se ouve ao nosso conjunto de valores morais e educacionais, isto é, quem gosta, mesmo que “só por lazer”, tem uma certa identidade com o que está assistindo e curtindo. O contraponto é a recente divulgação dos lamentáveis índices de educação escolar básica e fundamental mostrando um retrocesso na nossa educação nos últimos anos.
Agora, a pergunta: vamos banir da televisão programas desse tipo, recheado de maus exemplos e mensagens enganosas e sórdidas (como a que basta usar o sexo e alguns gritos e palavrões para se tornar vencedor), ou vamos continuar utilizando a “teoria do copo meio cheio”, dizendo que “ainda bem que existe esse programa para rirmos ou pouco e aliviarmos o estresse do dia-a-dia”, ou ainda “quem não gosta que mude de canal”, resposta típica de quem não sabe como resolver o problema, não quer assumir compromisso algum com sua solução ou, o que é pior, já está conformado com ele.
Resido em uma cidade onde a Prefeitura, há anos atrás, construiu uma pista de “Cooper” paralela a uma avenida plana e bastante movimentada, e certa vez, caminhando ao lado do prefeito, meu vizinho na época, disse-lhe que alguns motoristas estavam abusando da velocidade nessa avenida, transformando-a, principalmente nos finais de semana, em uma pista de corrida, e, claro, colocando em risco as próprias vidas e a segurança de todas as pessoas, crianças e adultos, que em grande número praticam exercícios físicos no local, de dia e à noite. E, na seqüência, fiz-lhe a seguinte pergunta: “não seria o caso de se colocar lombadas para evitar o excesso de velocidade na avenida?” A resposta dada pelo prefeito não me surpreendeu, por causa de seu excelente nível de formação educacional, mas me marcou pela profundidade de conteúdo e seriedade da proposta: “prefiro lançar uma campanha ou um programa de conscientização dos motoristas a colocar obstáculos na avenida”.
Pergunto: vamos continuar construindo lombadas e vendo o copo “meio cheio”, já que nunca houve uma morte com os excessos de velocidade na avenida, ou vamos educar os motoristas para que não corram mais?
P’ra fechar: há uma frase muito propagada na televisão que diz: “o bom do Brasil é o brasileiro”.
Aí pergunto: não seria melhor se a frase pudesse ser: “O bom do Brasil é que o brasileiro é educado”?

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